quarta-feira, 22 de setembro de 2021

 

Encanto

É preciso perder o encanto...para um tempo depois ...encontrar em um recanto só seu, memorias do seu próprio eu. Redescobrir suas verdades, suas insanidades, burrices bem juntinho das suas qualidades.

Saber então que só você pode te entregar a tal felicidade!

Prosperidade!

Saciedade...Só você pode alimentar e cuidar do seu Eu !

Tina coelho

quarta-feira, 28 de julho de 2021

 

Ela

Ela me deu tanto...

Quando eu era criança ela lavava meus cabelos, andava comigo de mãos dadas, me falava de música, moda...coisas de menina moça. Ela era adolescente e eu criança...

Nadava comigo em nossa piscina improvisada (um grande tambor de latão).

Eu cuidava dela, vigiando...para ela não namorar...a mando de minha mãe.

Admirava ela dançar no clube do Estreito, a dança de rosto colado com o namorado, o balanço suave do IÊ IÊ IÊ, que chacoalhava seus lisos e loiros cabelos que emolduravam tão bem os seus olhos claros.

Minha mãe cuidava de nós... do jeito dela...e o casamento era sempre o final feliz para todas.

Ela casou e foi embora, viver as dores e alegrias a que toda mulher se submetia, na nossa juventude. Onde tudo se resumia a casar ter e cuidar dos filhos a qualquer custo.

Eu também segui a cartilha, me casei com 19 anos, e segui para as alegrias e tristezas que a maioria das mulheres seguiam naqueles idos anos de 1979.

A vida nos separou, com alguns encontros ao longo dos anos, e nestes encontros nosso principal assunto era a alegria de ter nossos filhos e ama-los com tanta paixão. O outro assunto era sempre as reclamações das dificuldades impostas pelos casamentos.

E assim vivemos por alguns anos sem nos encontrar...

Então veio o WhatsApp e a pandemia, e voltamos a falar. Com a demora da pandemia e a nossa solidão, ela morando sozinha em Ribeirão preto e eu sozinha em Varginha, as nossas conversas passaram a ser duas vezes ao dia, com mensagens e longos telefonemas, onde passamos as nossas vidas a limpo...relembramos a nossa infância, os nossos avós, nossos pais, nossos irmãos, casamentos. Com nossos telefonemas se tornou possível resinificar as nossas histórias, que tiveram momentos muito difíceis e também momentos felizes.

Descobrimos juntas quantas coisas ruins vivemos, por causa das crenças familiares e culturais.

 O quanto nos submetemos a padrões impostos pela sociedade, como nos abandonamos enquanto mulheres, pensando estar agradando o outro, com medo de não ser amadas.

Deixamos de fazer por nós mesmas, adoecidas em um sistema que coloca a mulher como um ser servil e submissa.

E foi assim com programações futuras, de um encontro... quando a pandemia passar, para comer pizza, tomar sorvete e dar muitas risadas ...que nos despedimos no domingo, para meu celular emudecer e você sumir...

Como assim? Foi embora antes de mim!

 Não se despediu para sempre...porque as despedidas são para os que não se amam...e para os que não acreditam na eternidade.

Descansa... minha querida irmã Marli... os nossos corações estão juntos por toda eternidade.

Tina coelho

sábado, 25 de abril de 2020

Ela



E ela voltou a viver!
Não...não é uma fênix, não é uma pessoa ideal.
É só uma mulher real...
Que estava troncha, descabelada, amarotada e agora volta a viver!
Da sua maneira, do seu jeito de ser.
Alegre, emperiquitada, desavergonhada...
Percebeu que o tempo é agora...
É tempo de viver!
Tina coelho

Dividir com as onças





A história era minha, minha vida, minha caminhada...
Era para ser revisitada e para isso fui convidada, pela moça de pés no chão e olhos de onça.

E assim no chão deitada, com o corpo doido pelo peso do tempo...um tempo de fardos e de submissão.

A moça de olhos de onça tocava o tambor e chamava por minha alma perdida...esquecida, submetida.
O som do tambor foi me levando pelo vale de lágrimas das dores e da rejeição...fui descendo na dor e no choro do desamor, até que cheguei na mata. 

 Sentindo de longe a fala da moça fui deitando na terra, e como um sorvete fui derretendo, minha carne, meu sangue e meus ossos para o fundo da terra foi caminhando. 

Foi quando me vi terra! 

Sentindo só o pulsar do tambor e as batidas do meu coração, pude sentir outro coração...
O coração da terra! 

E assim num ritmo cadenciado o meu coração e o coração da terra, foram batendo juntinhos, num único som.

E a voz da moça com olhos de onça ficou igual voz de passarinho...piando fininho.

Eu me desintegrei... dei a carne, o sangue e os ossos para minha mãe terra.
Foi uma benção, foi libertação entregar para ela o que é dela!

E firmei compromisso...
Vou ter um pedaço dela, terra querida, para descansar os meus ossos...E dividir com as onças!

Tina coelho